Discussão sobre a mudança do nome da Escola Municipal Domingos Jorge Velho mobiliza moradores, movimentos sociais e instituições públicas em um momento de escuta e reflexão coletiva
Em um auditório tomado por diferentes vozes, memórias e posicionamentos, a cidade de Atalaia viveu, no último dia 15 de maio, uma audiência pública marcada por um debate sensível e necessário: a possibilidade de mudança do nome da Escola Municipal Domingos Jorge Velho. O encontro, realizado no Fórum da cidade, reuniu representantes da sociedade civil, moradores, movimentos sociais, pesquisadores e instituições públicas em torno de uma discussão que ultrapassa os limites do município e alcança a história do Brasil.
A convite da Defensoria Pública do Estado de Alagoas, o Instituto do Negro de Alagoas (INEG) participou da audiência representado pelo professor e mestre Leandro Rosa, que levou ao debate reflexões sobre memória histórica, reparação e o papel simbólico dos espaços educacionais na formação da sociedade.
Mas afinal, quem foi Domingos Jorge Velho?
Figura histórica do período colonial brasileiro, ele foi um bandeirante paulista que atuou em expedições organizadas pela Coroa Portuguesa durante os séculos XVII e XVIII. Seu nome ficou marcado pela perseguição a povos indígenas, captura de africanos escravizados e pelas ações militares contra quilombos. É também apontado pela historiografia como um dos responsáveis pela destruição do Quilombo dos Palmares, maior símbolo de resistência negra do período colonial, localizado na Serra da Barriga, em Alagoas. A ofensiva culminou no assassinato de Zumbi dos Palmares, em 1695.
Atualmente, a escola é apontada como a única instituição de ensino do país a carregar o nome de Domingos Jorge Velho. Para movimentos negros, pesquisadores e entidades ligadas aos direitos humanos, a homenagem representa uma contradição histórica, especialmente em um espaço dedicado à educação.
Durante a audiência, o clima foi de escuta pública e participação popular. Presidido pela defensora pública Dra. Soares e pelo defensor público Dr. Otoniel Pinheiro, o encontro abriu espaço para que moradores favoráveis e contrários à mudança apresentassem suas opiniões, experiências e percepções sobre o tema.
Para o INEG e demais participantes que defenderam a alteração do nome, o debate não se resume a uma placa ou identificação escolar, mas à forma como a sociedade escolhe honrar sua própria história. Em sua fala, Leandro Rosa ressaltou que escolas devem simbolizar conhecimento, humanidade e contribuição social e não homenagens a personagens ligados à violência e à opressão.
“A mudança representa um gesto de reparação histórica e de reconhecimento da dor de povos que tiveram suas vidas marcadas pela escravidão, pelo apagamento e pela violência. Em Alagoas, terra de resistência de Zumbi dos Palmares e Dandara dos Palmares, esse debate ganha ainda mais significado”, destacou o representante do instituto.
Do outro lado, moradores que defendem a permanência do nome argumentaram sobre a preservação da memória histórica e vínculos afetivos construídos ao longo das décadas. Algumas falas também associaram Domingos Jorge Velho à origem histórica de Atalaia e à fundação da primeira capela da região.
Mesmo diante das divergências, a audiência foi marcada pelo respeito às diferentes posições e pela tentativa de construção coletiva do debate. Para o INEG, o momento simboliza um passo importante no enfrentamento das marcas históricas deixadas pela colonização e pelo racismo estrutural ainda presente na sociedade brasileira. A proposta agora é que a discussão siga para a Câmara Municipal de Atalaia, onde novas audiências e debates deverão acontecer antes de qualquer decisão oficial sobre a mudança ou permanência do nome da escola.


